18 junho 2021

O Sótão

A casa centenária foi hasteada 
numa intersecção urbana da cidade 
onde proliferavam buganvílias 
carmim dramáticas explosivas
escoradas na anatomia de um muro altivo
vergando-se docemente ao sabor da brisa
sobrelevando as hastes espinhosas
por cima da clausula furtiva

A escadaria de entrada subia de alegria 
por entre delírios e comédias 
que tropeçavam por entre pleonasmos 
de um quotidiano efémero insuflado
poalhas leves e predicados de pulsar enviesado
ignorados na furiosa acústica da escalada
enquanto os pedúnculos terrestres
numa percussão estrondosa despropositada
atormentavam numa subida contornada
a candura das velhas tábuas de rigidez arcaica
que ascendiam até às águas-furtadas

No cimo havia um mundo imaginário
com uma flora diversificada
um refúgio de vocação esconsa
com uma janela deitada sobre o telhado
por onde entravam vagarosos rastos de luz 
que abrilhantavam a poeira que dançava no ar
iluminando o espólio obsoleto antiquado
impregnado de mágoas 
e aclamações pungentes do passado
projectadas na melancolia das sombras oblíquas

Era nessa ilha solitária
por entre sofás decadentes e carpetes desbotadas
berços que embalaram esperanças
mesas e cadeiras com atrocidades desamparadas
que se desvendavam os ignotos segredos de outrora
as cartas com fotografias amarelecidas 
as flores secas que perfumavam as páginas dos livros 
os laços aos quadradinhos
a colecção do “Mosquito" encadernada
a capa e a espada da farda
e o recanto preferido ensaio de todas as palavras
sempre que o silêncio entrava de mãos dadas

Liberta das amarras da tangibilidade enfadada
as viagens faziam-se por dimensões alienadas
ora identificando a aba das vestes do tempo
ora exortando o alarido das almas
fazendo voar a imaginação
pelas entranhas e ângulos adjacentes 
expondo enredos e palavras obstinadas
espólios inconformados com a erosão do tempo
esquecidos num inventário doce não reclamado

CRV©2021

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