13 novembro 2017

SHREAK a Ovelha

Certo dia,
Shrek a OVELHA
recrudesceu de uma grande prostração
daquelas que tolhem os movimentos
e humedecem profundamente a visão
fazendo-a tugir um balido plangente e sufocado
num tom melancólico e suspirado
fendendo toda a sua plácida e concomitante existência
sentindo eclodir dentro de si
prenúncios de uma secreta metáfora
que a envolveu subitamente numa revelação agitada
despertando-a de uma letargia
que há muito a serpenteava

Timidamente abriu os olhos cegos mortiços
criando-lhe um ímpeto energético frenético
como quem contém explosivos enterrado no espírito
levantando-se com vigor e energia
desenferrujando as patas empenadas
escorando as dianteiras com firmeza
e coiceando com engenho e travessura as de retro enjambradas
alforriando o coração emparedado por argamassas
surgindo-lhe de rompante um psicodrama libertador
que a levou a pousar o seu pasmo olhar observador
para lá das estacas do bardo
até às margens solitárias do rio BoaVida Formoso
promovendo o desaguar
da sua entorpecida essência interior

Observou o verde dos campos, as flores e as árvores
o balançar ameno do castanheiro da casa
os primeiros raios de sol que trespassavam as folhas
as manhas das libelinhas de incursões provocadoras
inspirando a brisa silenciosa proveniente da montanha
despontando-lhe um espasmo encrespado em torção arrepiada
que a percorreu desde o retro ondulado
até à excresceste giba óssea da mioleira
sacudindo um moscardo das orelhas
e franzindo a testa com perplexidade e estupefação
ao avistar um bando de aves
que alcançava os picos elevados da montanha
pensando que seria de grande dimensão
ter asas adequadas a voos insignes emancipados

Shrek a OVELHA
foi tomada por um torpor claustrofóbico
pois vislumbrou naquele voo instrumental
uma metáfora messiânica de abcissas coordenadas
animada pelo fulgor de grandes mudanças
decidiu ver o mundo, sair do bardo
livrando-se dos ralhos vernáculos do dono autoritário
e de uma tosquia primaveril da farta cabeleira
que no futuro poderia afectar mais do que a sua lanígera branca

       (deixaria de rebolar-se na relva atraindo o cabresto sensível
        as pastagens pobres, as charnecas e baldios
        as tosquias da lã de acordo com o grau de frisura da fibra
        a época de cio dependente dos períodos de luz)

Medindo as distâncias dali aos cumes das montanhas alvas
achou prudente aspirar a um salto mais moderado
ficando-se pelas margens do riacho solitário
que corria fresco e liberto ao acaso
por entre seixos e urze branca
escondido por acácias daninhas e um juncal de canas
habitado por cigarras e rãs danadas
com organização de sons em sequência escalada
que a impediam de toscanejar em paz.

E nisto adestrou a sua pulsão ávida, curiosa e natural,
que se entranhou nas suas patas traseiras
dando pequenos coices à laia de zaragateira
preparou o impulso derradeiro e final
para o salto de fuga do aprisco penitencial
Inspirou de um só fôlego o ar que passava
e iniciou a corrida entre o ponto em que se encontrava
e o vínculo imaterial que lhe alvitrava a liberdade
Sustendo a respiração
deu saltos olímpicos com balanço e distinção
imitando a arte e a graça dos ruminantes ágeis
aproximou-se da cerca e elevando-se no ar
alongando o corpo e esticando as patas esbeltas
visou o umbral da cerca e os campos
por onde deambulará em descontrolada debandada

Mas Oh! que infelicidade ocasional e fortuita
Shreak a Ovelha
acabou de bater com os seus belos apêndices ósseos
na trave mais mal posicionada da cerca
caindo redonda como uma ilustre desamparada
num local onde prosperavam malmequeres nativos de África,
ervas-azedas, papoilas-de-espinho e cardos bicudos
enterrando-os
tanto na traseira fofa como no focinho lanzudo.
Atordoada
esperou que os olhos parassem de rodar
e que a pouca massa cinzenta se ajeitasse no seu lugar
pois tentaria outra vez e mais uma se necessário
com a determinação que só acompanha os objetivos ousados
erguendo-se com rapidez e determinação
não fossem as suas irmãs perceber
o seu opróbio vexatório tombo no chão.

E ponderando novamente os riscos associados
voltou atrás e recomeçou a corrida
em direcção à guarda repressora do bardo
por isso correu cortando o vento
determinada a liderar a sua própria aventura
lançando-se com força, agigantando o seu impulso no ar
conseguindo ultrapassar a barreira obscura
desaguando cada gota do seu ser e pensamento
em esforço controlado
indo cair redonda do outro lado da cerca do prado

Shreak a Ovelha
correu para os subterrâneos das grutas escarpadas
sobrevivendo na mais obscura clandestinidade
habitando secretamente túneis claraboias e riachos de montanha
comendo erva tenra e bebendo dos veios que sulcavam as pedras
sete anos passaram até regressar ao bardo
quando o peso da lã que lhe pendia das costas
lhe tolhia os movimentos e a impedia de socializar
a alegria de a rever foi imensa
pois tosquiaram-lhe todas as camadas de pelo frisado
tendo perfeito um fardo de 27 kilos de lã encaracolada
que foi oferecido para aquecimento e paramentos
com grande generosidade amplitude e grandiosidade
a todos os pobres, pedintes e maltrapilhos
da sua pequena comunidade

CRV©2017

30 outubro 2017

Robin Wight

Fantasy Wire Sculptures - Fairies

15 outubro 2017

A Casa Centenária

Em memória do meu avô Joaquim



As memórias da casa centenária
tinham raízes antigas
que se erguiam do chão
com a demagogia das conquistas clandestinas
espinhos obtusos que cercavam a vida
entortando as ombreiras das portas
propagando-se pela estrutura como uma aleivosia fria
evadindo os seus ramos volteados
pelas frestas das janelas enjambradas
à procura de um recurso entorpecido
de uma ideia revolucionária
de uma fresta revelada obscura iluminada
que lhe desse uma senda definitiva
para exterminar a ditadura vitupeada

Havia nas conjuras secretas
uma sede atormentada de autonomia
vozes embargadas que em sussurro eclodiam
inscrições e manifestações destemidas
que desafiavam a heteronomia do Estado
ceifando com estucadas determinadas
a melancolia circunspectamente instalada promovida
pelo negrume das perseguições obsessivas
as deportações inesperadas
a castração das almas livres ensanguentadas
e o amargo fel das prisões injustiçadas

A casa centrava-se
nesse ardor de náusea ofegada
onde o ramalhar de vozes conjuradas
se concentravam em sussurradas congeminações
contra as atmosferas rarefeitas de honra e dignidade
utilizando um scriptum dialéctico cúmplice dissimulado
vermelho sangue gravado em todas as palavras
segredos e conjuras ajustados à rebelião armada
silhuetas com reflexos da “luta continua”
Deus, Pátria e a liberdade tanto ansiada
conspirações ocultas contra a vil ditadura
a “revolução” e a voz acossada da insubmissão
um solo longe dos opressores condenados
liberto de todas as considerações abstratas
do cinzento amargurado sufocado imoderado
dos espaços exteriores controlados
tendo apenas nas mãos os traços firmes da esperança
volteando a sorte madrasta a cada mudança
sonhando com o dia distante agora
em que a vitória explodirá esfuziada
readquirindo a ferro e fogo
a tão desejada procrastinada
LIBERDADE

CRV©2017

15 julho 2017

Bertel Thorvaldsen

Ganymede Waters Zeus - 1817

12 julho 2017

A casa sobre a praia

para a G.V.P.


A casa caiada sobre a praia
vibrava
como um mundo de pura alegria invariável
com recantos de luz amplificada
que vagueavam pelo chão encerado
acompanhando invariavelmente
as medidas exactas da tarde
junto ao tranquilo alpendre envidraçado
em momentos de justo descanso eterno

Enquanto uns repousavam da praia
nós corríamos para um mundo sem dimensões
feito de fantasias ágeis
e desmesuradas agitações
onde se incarnavam labirintos e invenções
com bocados de alma tatuados
pelas paredes
pelo tecto do telhado
feito com mãos a três dimensões
com a liberdade de um poema
e as cores garridas de uma perspectiva animada
agigantada
pelo estremecimento de viver
por dentro
em sintonia
com o lado melhor de todos nós

Cozinhávamos a ternura dos nossos segredos
na vinda dos caminhos secretos
com longos abraços
sementes de cardo
amoras por entre as giestas
flores de fumo afinado
encontros que faziam tremer as pedras
adornos, chapéus e colares
tolerados por apêndices elevados
máscaras de palhaços espantados
por entre o apelo ao silêncio telepático
e as risadas estridentes
das coisas mais importantes do mundo

Na busca do desconhecido sobrenatural
as caminhadas pela selva
entre a água cristalina da fonte da Margarida
e os muros decadentes das quintas em redor
adornados com as garras das silvas inconformadas
carregadas de amoras silvestres
e flores selvagens entrelaçadas
gafanhotos empoleirados em vagens
osgas, cobras e lagartos dissimulados na terra
gritos histéricos
corridas de pânico
tropeções
e as pedras a enredarem-se nos sapatos
numa depuração das corridas proféticas desatinadas
cravadas nas grutas recônditas do passado
viço pungente enxertado
nas memórias que convergem
agarradas a um fio de prumo perpendicular
sentadas num baloiço
de frente para o mar
por cima de lingotes de ouro
desenhados
para além da linha do horizonte

CRV©2017

17 junho 2017

Apolo

13 junho 2017

6 Haikus - Das Palavras ácidas


Passa os dedos pelos ângulos apolíneos das palavras

decifra-lhes a origem do espasmo

cataliza todas as formas de pirotecnia forjada



Foge das palavras ácidas,

das fáceis também

ambas concorrem para o submundo do vento



Tem cautela com a rectórica do ímpio

pois na sua solidão táctil

visa impor-se numa latitude cobarde



Não reajas ao agastado

na próxima madrugada as suas palavras

serão transportadas por asnos e camelos



Mantém a tua integridade inabalável

olha com desdém as palavras

que se lançam imprudentemente no abismo



Observa as palavras do cínico na boca desenhada

aguarda pacientemente

pelo último suspiro


CRV© 6 HAIKUS

30 maio 2017

Henri Bouchard

Young Girl with gazelle

28 maio 2017

6 Haikus - Pedras

Cuida da tua casa de pedra

das sombras apolíneas que a envolvem também 

deixa-as preencher o espaço introspectivo das palavras



A ilusão trágica das estátuas de pedra 

consiste em desconhecer 

como seriam talhadas as expressões das mãos



Enaltece o poder das pedras 

como Albertus Magnus profetizou 

são intrínsecos os elementos secretos sem nome



Tenta encontrar o sonho

na escalada da montanha

Decifra-o por entre as pedras serenas



Ignora os tiros de pólvora seca, as pedras também 

salta por cima da morte 

como um pássaro que voa rumo à liberdade



Pouco importa aquele que te arremessa pedras 

o vento tratará de lhe oscilar a mão 

esculpindo arcos frustrados no tempo


CRV© 6 HAIKUS

20 maio 2017

Notus

A casa tinha uma senda desassossegada
envolta numa imutável aura secreta
pois aguardava numa expectativa ávida

      (antes do prefácio das grafemas ideográficas)

que a luz se curvasse sobre a terra
e esgravatasse um buraco no chão
escapulindo-se o astro em perícia sem deixar rasto
eclodindo sem mordaça
o movimento artesiano das mãos

      (presságios de um combate
       contra o obscuro de uma cave)

lambendo devagar o ar eclético aperfeiçoado
com um efeito intenso brando agitado
torneando as linhas do espaço
talhadas entre o ajuste adequado do crâneo
e os feixes equidestantes do peito

Na noite invertebrada
na convergência das horas vagas
surgem as entranhas
estratégicamente posicionadas
os santos mudos em vigília adequada
a reflexão líquida desenrolada em combustão lenta soletrada
as preces
o toque leve da boca contra as paredes
a porta animal que se perde condenada
o presente futuro obstinado resgatado
inalado nos espectros que se elevam
nos ângulos obtusos da visão exumada
por dentro de uma atmosfera
pausadamente metamorfoseada
em constante mutação

Na ilha que navega sobre as águas
agarro os odres de pele disfarçados
ofertados por Aeolos com mil cuidados
ébrios com os ventos alísios aprisionados
evitando os adamastores da noite simulada 

       (os traidores que vivem do lado de fora
       os vendilhões do templo idolatrado
       os servos vendidos pagos a soldo enganado
       os que libertam os fogos sectários agitados)

escutando apenas o tranquilo cruzar das águas
embalada por Notus
numa jangada de pedra em suspensão colossal
fazendo lastro rumo aos meridianos do sul
numa recta coplanar para lá de Ítaca
lendo todas as refracções da alma,
das mãos,
dos sentidos que rebentam em vegetação subtil
cumprindo as profesias de Delfos
ceifando todas as montanhas que se atravessam
navegando de costas para o silêncio do mundo
embalada num sopro épico que se agrega
retirado de uma odisseia
feita de traços de oração seráfica
oposta às coordenadas de Ulisses

CRV©2017

18 maio 2017

08 maio 2017

Na dobra do Nada

No cimo, na dobra do nada,
alcanço o teu corpo suspenso em crescendo
numa das páginas que voou desgarrada
empurrada por um sussurro do vento
vinda de uma história ensaiada
duma ficção baloiçada ao de leve imaginada
entre a memória e a gravitação vaga
cortando o ar desesperada
porque lhe fogem as árias, as fantasias, as sinfonias
porque lhe fogem as palavras que não se querem aprisionadas

Agarro todas as letras que esvoaçam hesitadas
as vadias,
as nascidas na raíz das conchas perdidas,
as que obedecem à espessura das ondas antigas
as tangíveis, as proibidas, as maltratadas
as que viajaram na roda riscada
forjadas em poses emocionadas
germinadas em plácidos bagos de luz destacados ou
em teoremas dum qualquer voo insigne
que pendiam sobre lagos vazios,
despovoados
feitos de todas as emoções silenciadas

Como um aracnídio ofegado
seguro numa só mão
todos os monstros que sobrevoam desalinhados
a extensão limitada que regula o meu espaço
uno-os, desfaço-os
faço deles uma corda de ocupação estrangeira
um torcido anastésico
um barbante encaixado no cérebro
com acomodação oportunamente sistemática
tornando todas as longuras
numa canção de efeitos mágicos
que do longe se faz perto
num tempo com poesia associada

Depois, pinto essa página desgarrada
com as cores cósmicas da madrugada
devagar,
lançando estucadas vibrantes no ar
sem a pressa oblíqua que devora o crepúsculo vespertino abreviado
associado aos teoremas dos planetas vizinhos
o seu aparecimento, distância e orbita planetária
dos quais não importa mesmo saber nada
urgente será
antes do sol eclodir
e a luz circular se erguer
desenhar uma ilha destacada
preenchida com cores que explodem com ímpeto
rebentam, quebram, arruinam,
como os enunciados das leis sobrenaturais
exortando causas primeiras,
uma alegria, uma ideia,
uma proposição filosófica derivada
um manancial de inspiração de uma gargalhada
desenhar todas as poesias
que aguardam os comandos
dessa corda que liga o cérebro
às projecções localizadas na extremidade dos meus braços
seguir o som dessa música que toca imparavel
e que desvela num idioma oculto
todas as palavras guardadas exultadadas pelo tremor das mãos
num movimento arabesco
suspenso
que ultrapasse os limites tumultuosos do razoável

CRV©2017

01 maio 2017

18 abril 2017

Anima Domus

Seguia por uma vereda estreita acidentada
golpeada por tornados de poeira remoinhada
e novelinhos hereges que demudavam a seus pés
contra os seixos aculeados
por onde se apressavam os seus passos
cravando-se como espinhos
nascidos em profuso terreno agreste.

Com a urgência que lhe impunham os sentidos
apressava a marcha
empurrada pelo ensejo de chegar ao cimo do atalho
para rever ao longe o recorte etéreo da casa
depois das lucubrações mentais
engolida pelas silvas vadias, os cardos e as giestas bravas
esquecida como uma ilha perdida
estropiada como um esqueleto abandonado na margem

Desobstruída a perfunctória via vedada
chegados ao cimo retardado
impunha-se a confidência introspectiva dos solitários
olhar os campos, a eira, a casa
as telhas matizadas em tons laranja indecifrado
as vigas retorcidas aprisionadas na pedra antiga
as janelas exiladas que respiravam em tensão contida abnegada
as portas incrustadas em paredes de aleivosia cinza
rombas por conciliábulos vencidos pelo granito inamovível
como conchas forçadas a engolfar
todos os axiomas interditos da nascente de um rio

A eira
em frente à casa
era o local onde o sol traçava
auspiciosas rotas na madrugada
e a lua aguardava essa alquimia que convergia
criando trilhos e epifanias
que mimetizavam hipérboles agitadas
num desvelo presumido
que se erguia num requinte gráfico de palavras

Com as mãos acariciou ao de leve as pedras da entrada
Sentiu-lhe a robustez e a rugosidade sonhada
Os momentos de felicidade
quando a alma se soltava e esvoaçava livre
como um corcel num campo de batalha
e as melodias evoluíam em suaves nostalgias
em perfeita sublimação interiorizada

Chegava com a saudade de quebrar luzes apagadas
levantar as sombras caídas
libertar as estátuas aprisionadas
dar-lhes alma
dar-lhes vida
dar-lhes a rota para uma debandada massiva
ficar a vê-las voar rumo ao gradiente cromático
que represtina de assalto
todas as fabulações engenhosas da poesia

CRV©2017

24 julho 2016

Gaylord Ho

Transcendence

11 julho 2016

O vendedor de Sonhos e Poções Mágicas

Atravessava a serra em marcha compassada
na hora em que o crepúsculo hesitante
afagava o brando silêncio solitário da estrada
e os últimos raios de luz debatiam-se rejeitando as trevas
agarrando-se em penitência agonizante
às fragas mutiladas cravadas nos cumes em chamas

Descia por um ermo fragoso desconhecido
rodeado de escaladas estratégicas
e emaranhados de silvas atmosféricas
viços sinistros espinhosos retorcidos
perdidos no meio de fendas e de pequenos ermos escondidos
predicados arruinados onde a morte edificava a sua casa
servindo por entre as farpas aguçadas
pequenos frutos para mãos decepadas
pomos sumarentos para consolação da sede em estio caliente

Apoiava-se num onagro da abissínia de orelhas quedas invertidas
acautelando todos os ângulos da carga secreta conduzida
duas arçãs cheias de graça
instrumentos de destreza e outras trapaças
conjunto bélico artilhado pronto a persuadir os incautos
que o circundavam em feiras e demonstrações ensaiadas
transmissão de patranhas e outros ardis lúdicos congeminados
numa teatralidade encenada à laia de grande sátira menipeia.

Dirigia-se para uma vila trancada a sudoeste
rodeada de brejos, outeiros e pequenos bosques erráticos inflamados
cravados entre verbascos, ulmeiros e explosões de folhas verdes
refém dos desertos, das águas, de um tempo e do esquecimento
de auroras boreais, céus azuis e nevoeiros densos
habitada por almas engastadas em recifes fustigados pelo nada
rodeados da plenitude de um isolamento extremo.

Aparecia envolto numa poalha remoinhada alada
que lhe contornava a sua espessa áurea
entranhando-se pelas cavidades anatómicamente escancaradas
olhos pretos falcolíneos que anteviam as oportunidades vivas
nariz adunco que olfatava os destinatários das suas trapaças
boca ajeitada a um irónico sorriso cínico que não enganava
língua afiada para desfiar patranhas viageiras e alegados de sedução brejeiras
pavilhão auricular externo atento a todas as heterogeneidades
carregado de enfeites, guizos, amuletos
e outros objectos ocultos de superstição e presságio demente
destinados a criar o temor nos crentes ignorantes
e a convencer os resistentes dos seus vedros artifícios e enganos.

Montava a tenda no meio do terreiro da vila
arreando o asno com um aparelho de fitas coloridas
que lhe dava um ar jovial de potro ladino com graça festiva
armando depois a barraquinha dos sonhos e adivinhas
a do curandeiro de maleitas obscuras e do endireita
a do arrancador de dentes, de tumefações e tumultos ardentes
e a casinha da eterna aflição
dos inchaços e dos supositórios de evasão.

Tudo pronto proponha-se logo começar a apregoar as suas deixas
alcandorado num madeiro tosco colocado em sopé sublimemente elevado
transformado pelas suas mãos prendadas em palanque edificado
dando-lhe altura, elevação, postura e grande distinção
sobre o aglomerado de corriqueiros imberbes locais
que ornavam curiosos, deslumbrados e boçais
o discurso estruturado asseverando as virtudes de poções especiais
que erradicavam mau-olhado, sortilégios, malfazejas, maleitas,
picadas de tse-tse e de estranhos carrapatos
imunizando contra venenos, potências ocultas e afecções protozoárias
dando a volta à cabeça, ao corpo e a ataques parasitários
libertando-os de moléstias e acédias
tanto físicas como mentais.

Anunciava o programa de actividades daquela tarde
insultando num megafone avelhantado
que roncava mais grunhidos distorcidos do que difundia as falsas verdades

      - ungentos para as maleitas do peito,
      - âmbulas de óleos perfumados para adoçar o ar
      - leitura de cartas e desígnios de providência
      - vaticínios proferidos por engajamento sobrenatural
      - descodificação das linhas da mão
          ( palmas imaculadas de virgens abençoadas )
      - mordeduras de cobra para as cãmbrias do cérebro
      - resina pegajosa para calar as criaturas tagarelas
      - cruzes-credo para os males de amor eterno
      - ungentos e mezinhas lascívias para damas honoríficas
      - pernas de rã afrodisíacas para cavalheiros adormecidos 

e todo um espólio convicto para persuadir o espectador escabreado.

Na hora em que se convertia em adivinho da felicidade
instalava-se na barraquinha obscura com luz velada
recebendo os condenados somâmbulos e os de alma asfixiada
os mortos vivos e os apocalíticos habituais
os que queriam o mal alheio e os vingadores implacáveis
tendo mezinhas para todos os feitos e oráculos da verdade
massagens de corpo localizadas, ungentos com pó de estrelas
fluxos de cinzas e ímpetos energéticos naturais
para contrariar possessões demoniacas, exaltações místicas
formigueiros de pessegueiro, espasmos e pulsões de extâse sexuais
que aviltavam o corpo e angustiavam a atmosfera de paz.

Deu entrada um cavalheiro graxo apessoado
de fisionomia ousada e olhos vis implacáveis
com casaco folgado, jaqueta preta e laço estrangulado no gargalo
abas de grilo falante, camisa de colarinho branco
calças imprudentemente elevadas
devido ao protuberante bucho animal
liga elástica que acautelava a compostura das meias alvas
e sapatos brilhantes de biqueira prontos a matar baratas.

Pediu com urgência uma mezinha sicária
destinada a uma bruxa que circundava as suas herdades
incólome a todos os ardis, artifícios e engenhos para a erradicar
à música persuasiva da alma, às agonias da prisão
e à solidão atormentada dos indigentes excluídos da sociedade
por isso se sentia em profunda desasperação
com odiosidade visceral e instinto homicida
pois a velha de uma fealdade hedionda,
com o rosto encarquilhado, olhos hialínos e pele ressequida,
deambulava pelas fronteiras do estado
com o cadáver curvado sobre o peso da sua curiosidade infinda
apoiando-se num bastão de carvalho certamente com poderes mágicos
pois ora se transformava em cobra ora se transfigurava em águia
iludindo todos aqueles que pagos a soldo a acossavam.

Por isso estava ali para uma intervenção extraordinária
a destruição definitiva da sombra que há muito o angustiava
para isso havia remetido ao silêncio o seu exército de criados
uma vez que com tiros e outro género de atrocidades
nunca a havia amedrontado. 

      “ Se não a mato à lei da bala há-de morrer de solidão.
      Não admitimos estrangeiros nas herdades
      que não tenham inteligência desempoeirada,
      perspicácia no trato comercial,
      e personalidades multiplicadas para o que der e vier”. 

Nisto o adivinho propôs-lhe uma solução
      "convida a velha para a tua mansão e dá-lhe a beber esta poção
      verás que cairá morta a teus pés"

E assim o homem apessoado partiu determinado
E numa tarde qualquer convidou a indigente para sua casa
fingindo-se benevolente e preocupado
deu-lhe pão e água
e por fim sacou da poção mágica que lhe deu a bebericar.
E aí o homem mostrou o seu desassombro
pois nada se passou como esperado
como no conto de Mallarmé
por baixo da corcunda e do feiume da máscara
revelou-se um rosto que o homem havia fixado na candura do passado
remontando ao tempo das virtudes exactas
despojado de interesses e de conveniências sociais.

Sem mais demoras a mulher partiu
deixando-lhe apenas algumas palavras
     “Na vida somos uma ilha,
       podemos não ser meta 
       apenas caminho
       mas as velas
      ardem todas até ao fim”

CRV©2016

24 abril 2016

Lourenzo Quinn

Mother Nature Force

11 abril 2016

Vida para além da Morte

Vivia atrofiado no espasmo de um grito aferrolhado
atarracado num silêncio estrondosamente lúgubre,
longe do tempo, longe das casas, longe das gentes,
num lugar ainda não cartografado
obliterado numa afasia de farpas cravadas
em corpos debruçados sobre universos mudos

Caminhava numa atmosfera crepuscular amarga
enrolado numa mortalha fúnebre,
carregava no semblante um olhar tíbio asfixiado
estuário desolado caiado de cinzas imaculado
máscara silenciosa
dos seres agonizantes que passam pelo mundo

Encontrava-se num estado moribundo
tolhido pelas dores que padecem as pedras ao relento
inerte num corpo composto por uma miopia aguda
pronto para o início da grande noite das trevas
acomodando-se placidamente
a todos os ângulos obtusos do seu túmulo

Experimentou repetidamente o local da resignação
tirando as medidas exactas da sua agonia
dialogando com o vazio do seu corpo ausente
preferindo mil vezes a morte por companhia
deitado sobre uma cama de musgo frio ao relento
no local onde os corpos iniciam o longo abraço
com a terra aconchegada de vermes e fungos
decompondo lentamente os dilemas e as penas
daqueles que há muito se evadiram deste mundo

Recolheu os braços parados,
mirrados pela densidade dos ventos sinistros
colocando-os em posição de descanso eterno
colmatando os ruídos que ecoavam dentro do crâneo
entorpecido pelo ciclo das pedras duras e persistentes,
da alvorada à madrugada
pronto para ser enterrado, finalmente,
encontrando assim a paz desejada
tendo a morte por companhia
passaria a dialogar com Hades de frente
atando a alma a uma qualquer aleivosia
que amigavelmente a faria sair dessa imensa letargia

Preparava-se para morrer definitivamente,
aguardando a confraternização de amigos
as letras mortas e as nuvens tempestuosas
os trilhos exilados e as epifanias solitárias
porém,
por detrás de toda essa grave aparência
parecia-lhe que ainda habitava
a luz ténue de um pavio sinistro
que baloiçava em gradiente clamor absoluto
pelo que se ergueu de repente
ao som de um tambor que ressoava distante
por entre os uivos mutilados do vento
e uma explosão de elucubrações mentais urgentes
em crescendo inflamado
em surda agitação
convolando a mágoa asfixiada 
em doce sublimação
iluminando por dentro todas as noites densas 
juntando a vida, nostalgia e poemas
à germinação de um teorema complexo
feito de ideologias próprias 
e triunfantes

CRV©2016

Lorenzo Ghiberti

Golden Gates of Paradise by Lorenzo Ghiberti Gilt Bronze 1452 CE