01 abril 2018

Heitor da Silva Costa

Cristo Redentor - Rio de Janeiro

25 março 2018

Extermination Camp

Era forte e de porte majestoso
tinha uma imperceptível elevação no peito
impossível de descrever se seria apenas a vaidade irrompida
ou algum inchaço inflamoso à flor da pele
daqueles que transpõem as barreiras da virtude
e se instalam no lado despótico da malignitude
gerindo os seus actos de forma abstrata e cruel
submergindo no prazer sádico das vicissitudes amiúdes
destruindo e galvanizando os pobres
os astecas e os maltrapilhos de porta
rejeitando a pontapé os desajeitados e os líricos de circo
e todos aqueles que por artes próprias
se atreviam a olhar de soslaio disfarçado
ou pior ainda
a cruzar o seu espaço empírico reservado
ditava-lhes o extermínio superlativo retardado
em modo de aniquilação amiotrófica exposta
com transladação e inumação exímia total

Olhava com desprezo a generalização do universo
por isso vagueava entre a realidade assente
e as imagens que galopavam
nas suas simulacras experiências
colocando a sua tónica utópica ensaiada
nos caderninhos onde anotava e desenhava
elipses perturbadoras com ângulos enviesados
enchendo de anagramas as mentes que o escutavam
levando os incautos a exclamações de boquinhas abertas
espasmados pela perversidade aberrante
das instruções minuciosas de como cortar as asas
a moscas, perdigotos e gafanhotos perniciosos
ou como dissecar rãs e outros batráquios rastejantes
explanando com eloquente lucidez e detalhe
as torturas que os seus capatazes
deviam infligir aos provocadores
apanhados a menos de mil metros
da sua coiceira engalanada
pois daí retiraria boas inspirações e ideias
tomando nota no caderninho dos lembretes
quantas dores sofreram os imprudentes
ou quantos tormentos mereciam ainda padecer
fazendo orar os que imóveis vibravam
aterrorizando os incrédulos espectadores

Era importante evidenciar a sua força
numa demonstração viril do seu diletantismo exuberante
arrasando todos os párias estéreis
cercando todos os factos de um negrume assustador
fazendo preparativos para as exterminações pontuais
e longas congeminações pungentes
sobre quem iria degolar nessa manhã
ou quem iria crucificar lentamente
assumindo o seu olhar uma loucura selvagem
que lhe salientava as zigomáticas tissuras do rosto
rendendo a plateia aos seus trejeitos patológicos
desprezando a redenção e a comiseração
através de um qualquer acto de contrição amiúde
fazendo antes discursos mudos
com largos gestos ensaiados eloquentes
preparando o público para as decapitações urgentes
desprezando os tratos menores
e exacerbando as reentrés com as suas disposições
pois tratava-se sempre de mais uma demonstração lúdica
para todos os seus seguidores obedientes
do método de extração de emoções no vazio
como algo digno a reportar
ordenando por isso que quebrassem braços e pernas
soterrassem cabeças no mais ermo lugar
e escutassem as vozes angustiadas
os gritos em surdina e os apelos desesperados
registando tudo
dando largas à criatividade
desbridando caminhos
apoteoses imagéticas da irredutibilidade real

CRV©2018

17 março 2018

12 março 2018

7 Haikus - Musas

Constrói a musa à tua imagem

preenche todos os conflitos internos

rodeia os gestos de cândida ternura



Cria as musas com a essência da verdade

a poesia torna a alma invencível

às tempestades que se insinuam no tempo



Invoca as musas dos teus sonhos

abre os átrios trancados

revela os poemas ocultos



Escreve sobre o tempo

sobre as musas desejadas

adapta os olhos à imaginação fértil



Idolatra as musas sonhadas

os anjos fizeram-se

para as revelações dos cegos



Não importa as musas que atravessam os teus poemas

releva apenas o facto

de voarem entrelaçados no tempo



Dedica os teus poemas ao mundo

curiosa a interpretação daqueles

que se julgam agraciados na tua prosa

CRV©2018

26 fevereiro 2018

The Games

The Greek Games

18 fevereiro 2018

Tróia dos Teucros

De vigília no alto da muralha
quando a madrugada desponta nos cumes do Ida
e Apolo lança sobre a cidade o seu manto protector
vejo os Aqueus levantarem o cerco da praia
soltando as amarrações dos navios aportados
depois de dez anos de escassez e privações
enfunando as velas bastardas
rumo à enseada de Tenedo
numa derivação de enganos
ajudados pelos aquilões do tempo

Navegam contra o halo desmaiado de Selene
      - que cruza os céus numa carruagem -
orientados por deuses e pelos Fados
cortando a crista das ondas escarpadas
de costas voltadas para os dardânios encarcerados
que em aprovação dos desertores
festejam os desposos dos arraiais da praia
saindo da clausura das muralhas
provando o sabor da maresia em liberdade
passando revista aos locais ermos
ao porto de onde largara a armada
abandonando o luto instalado
na boa Ílion injustamente sitiada

Às portas da cidade
deixaram o sombreado de um cavalo agigantado
com os costados disfarçados com ramagens de abeto afeiçoado
discutindo os pelasgos se seria uma dádiva de Minerva
ou um regresso profético armadilhado
tendo Cápis e Laocoonte prudentemente aconselhado
que se deite o mamífero de madeira às águas
pois qualquer doação espontânea dos Aqueus
seria um estratagema militar que suscitava inquietação
por isso queimem-se as dádivas acidentais
ateando-lhes o fogo divino debaixo do cepo
e abra-se um buraco nos côncavos interiores
para desentranhar a pestilência
deixada pelos inimigos dos Teucros

Posto isto vi os ânimos exaltaram-se
havia uns com grande sanha que defendiam
a entrada do madeiro para a Cidadela Sagrada
cumprindo-se venerandas honras a Palas
por isso Laocoonte foi morto por duas víboras
de olhos faiscantes e línguas vibrantes
que vieram do lado do mar ensanguentado
enrolar os corpos escamosos
em torno da sua Fortuna inesperada
acreditando os incautos que de um castigo divino se tratava
pois tinha vociferado contra a oferenda da praia
bramindo a arma
cortando o espaço
desferindo golpes cruéis contra o flanco da garupa do cavalo
cravando lanças nas ilhargas e no bojo
retumbando e gemendo as entranhas
como se o monstro de madeira
tivesse desígnios vivos
nas profundezas do seu esqueleto armado

Sob as patas do cavalo
vieram os homens colocar os troncos da mudança
franqueando as Portas Ceias
derrubando os muros que ampararam o cerco
lançando cordas de estopa em redor do pescoço da besta
sendo domada pelos de constituição robusta
deslocando a montanha de pau muralhas adentro
seguidos por mulheres e crianças entoando cânticos proféticos
lançando preces de purificação em fervorosa jubilação
erguendo as mãos ao ar em sublime devoção
agradecendo a dádiva a Minerva
vaticinando um futuro melhor
sob a égide sagrada de Palas Atena

Colocaram o equus insidioso na Cidadela
todos cegos e em incerne alucinação
dançando intensamente
ao som de cítaras em arco e batuques de pele
cobrindo os templos com ramagens purificadas
exortando os deuses em sinal de gratidão
irrompendo lamparinas e fogos sagrados por todo o lado
tanto nos altares de bairro como nas nascentes de água
óleos de tâmara e unguentos perfumados
oferecidos em homenagem com oblações várias
aos deuses salvadores dos Troicos
um touro sacrificado e o sangue doado
farinha ritual dispersada sobre a escadaria sagrada
luminárias enfumadas envolvendo os espaços
vinho e leite derramado em libações à divindade

Festejavam em euforia a fenda nas trevas
o fim do abismo e das noites sem estrelas
a benfazeja sorte aportada pelo madeiro de patas
fazendo dádivas a Baco
e tocando as flautas de Pã com os Faunos
batendo palmas e exortando danças frenéticas
lançando as lindas bacantes a cabeça para trás
rolando os olhos e atingindo transes hipnóticos
rogando preces cerimoniais aos Penates pátrios
com exuberância e gestos largos
acorrendo os homens aos altares sacerdotais
envergando mantos frígios e vestes formais
adornados com fitas coloridas nas têmporas
e coroas de flores perfumadas
comemorando a deusa na Cidadela de Palas

Com o girar do céu e o regresso das estrelas
percorro a cidade com uma candeia iluminária
e reparo nos Teucros cansados que adormeceram
pelo chão dos templos
pela sombra das casas
sob o manto da lua silenciosa
na grande noite em sonho e vinho sepultada
relembrando cauteloso os Fados enunciados por Cassandra
       - filha de Prímio -
e desacreditados por Febo por amor rejeitado
vaticinando a queda de Ílion
confiando às folhas do oráculo
profecias nefastas

Lasso regresso à casa de meu amo Eneias
recomendando os deuses vigília no telhado
sentado no topo da chaminé
vislumbro o luar espelhado num mar tranquilo sem vagas
isto quando ao longe surge uma armada inesperada
aproximando-se em silêncio
da nossa costa larga
da nossa praia desaperrada
e um alvoroço contido surge junto ao cavalo sagrado
pois das entranhas do animal de pau
saem agora homens armados
com escudos dardejantes e lanças de bronze flamejantes
estranhos aos habitantes da nossa cidade

Correm em direcção aos portões de Ílion
abrindo-os de par em par
quando a armada já se encontrava na praia
deixando entrar os argólicos infandos
que sinuosamente aguardavam o negrume da madrugada
para conquistar a cidade sagrada
para correr o sangue dos Treucos inocentes
apoderando-se das muralhas invioláveis
pela arte pelasga das doações enevoadas
elegendo o cavalo profético
nos altares nefandos dos gregos

Acordem dardânios meus! - gritei do alto da casa de Eneias
ao ver Tróia desmoronar a sua grandeza imaculada
rebentando os fogos pelas ruas e pelas casas
ouvindo-se ao longe o som das armas quebranto
como faíscas negras que rodopiavam infesto
cortando as lâminas os senhores e os servos desesperados
ouvindo ao longe os gritos das mulheres e das crianças aterrorizadas
infiltrando-se a morte em ondas maléficas por todo o lado
entrando os aqueus às centenas no sepulcro amaldiçoado
encostando escadas de encontro às muralhas
transformando a pacatez das entranhas da terra
num monstro com as garras assanhadas
chispando fagulhas e bolas de fogo vindas do ar
saltando sobre todos os Treucos
desiludindo todas as esperanças de paz

Corro a pegar nas crianças e nos penates teucros
levo Astíanax e Julo ao colo em direcção ao Ida
saindo por um portão secreto nos calabouços do palácio de Prímio
desconhecido dos aqueus como segura evasiva
fugindo pelas matas e pelos campos de searas
enquanto Eneias combate a pestliência abatida
sobre a vetusta Tróia onde se abrem todas as chagas
onde corre um sangue negro pelas ruas condenadas
onde o mundo se tisnou de negro
e o medo é aprumado nos brados lutosos das gentes abandonadas
onde os altares já são pasto nefando dos pelasgos violentos
e as preces são mudas ao som dos machados
despedaçando as traves e os batentes das casas
chacinando com rugidos de leopardo
todos os filhos eleitos de Dárdano - o primeiro

Olho para trás uma única vez
      - não vão os Aqueus terem trazido a Górgona com eles
        transformando em pedras os Teucros inocentes -
e vejo os clarões de fogo volteando no ar candente
a ira descontrolada perante a inclemência dos deuses
que se uniram aos Aqueus cruelmente
desferindo golpes e arrasando a neptúnia urbana
escravizando os Teucros e convertendo os templos
levantando da terra as fundações de glória
arrasando e prostando as memórias
da excelsa Ílion dos Deuses.

CRV©2018

20 janeiro 2018

Palas-Atena

Pallas-Atena - Vienne

08 janeiro 2018

Cartas Mudas

Sempre que abro a porta dessa dimensão
há um rasto de luz que atravessa o ar até ao meu silêncio
poalha remoinhada que esvoaça
penetrando ao sabor da aragem que passa
desafiando todas as palavras
que se concentram inquietas
debaixo de uma pedra tumular
da qual fiz o meu silêncio

Observa.
Retira do peito todas as letras guardadas em segredo
bocados de árias sussurradas
entre suspiros e tormentos
psicodramas individuais
exultações várias
jocosidades temperamentais
platonismos apolíneos
e tantas emoções tropeçadas umas por dentro das outras
que se amontoam numa pira festiva
à qual se ateia um fogo empírico que abra comportas
e purifique o âmago megalítico do caminho

Caminha.
Eleva aos céus todas as sementeiras latentes
cria um solfejo de ideias
um tornado discreto
uma nuvem cheia com recortes silenciosos
sobre as partituras do tempo
expondo os colapsos gravitacionais
as parábolas escritas do avesso
destruindo e criando tudo
implodindo e renascendo
colapsando a amálgama erguida
no interior da névoa suspensa

Ergue-te.
Forte como um penedo
espesso e resistente
inspira-te nos lugares recônditos da mente
recebendo a benção dos justos
semeando letras
cravando palmas bentas
envoltas em espasmos iluminados
feitos de suspiros e tormentos fechados
abismos e istmos
alegrias e apologias desenfreadas
cravadas em solo pedregoso e crosta agreste
ansiando pelo equinócio
onde todas os ramos vão florir
onde tomam forma todas as quimeras

CRV©2018

01 janeiro 2018

Myron

Disc Thrower - sec: V - B.C.

26 dezembro 2017

Nihil Humanum est

Surgiu por detrás dos escolhos timoneiros do alto
sobrevoando em revoadas
os acidentes geográficos da montanha pátria
que se erguiam contra o céu em ameaça
circundados por um corolário gasoso agitado
nuvens sem representação morfológica exacta
suspensas no ar, agarradas em confidência
esquadrinhando as fragas empoleiradas nos apogeus ásperos
iluminadas pelo sol que despontava
espalhando a luz sobre as neves perpétuas abandonadas
enterradas nas cordilheiras de pedra escarpada

Sem bater as asas
planou ao sabor dos zéfiros ascendentes
desenhando círculos, ângulos, curvas
arcos imensos cruzados sobre a floresta dormente
lívida de frio
paralisada pelo gelo
com todos os animais recolhidos
as árvores petrificadas
e o silêncio lúgubre
dos locais entorpecidos
pelos solstícios de Dezembro

Procurava uma ilha de clorofila
segura e tranquila
da qual pudesse fazer casa
ninho
terra prometida
escorar as garras de rapina
nos ramos obstinados pelas adversidades do tempo
escolher uma árvore
construir um mundo de privacidade
longe dos lobos
das alcateias
das sombras da noite
das ratoeiras
e dos dispositivos de caça ilegais

Cruzou os céus pela frente do sol de inverno
perscrutando os recessos das escarpas graníticas
sobrevoando os cursos de água limpa
as copas geladas
e os lagos de água fresca
deparando-se com uma clareira na mata
rodeada por sete-em-rama de porte variável
afastada do estranhamento da floresta
perto de uma linha de água adjacente
de carácter permanente
que prometia assegurar
a subsistência do advir
incerto

CRV©2017

24 dezembro 2017

Mesopotamia

Mesopotamia

13 novembro 2017

SHREAK a Ovelha

Certo dia,
Shrek a OVELHA
recrudesceu de uma grande prostração
daquelas que tolhem os movimentos
e humedecem profundamente a visão
fazendo-a tugir um balido plangente e sufocado
num tom melancólico e suspirado
fendendo toda a sua plácida e concomitante existência
sentindo eclodir dentro de si
prenúncios de uma secreta metáfora
que a envolveu subitamente numa revelação agitada
despertando-a de uma letargia
que há muito a serpenteava

Timidamente abriu os olhos cegos mortiços
criando-lhe um ímpeto energético frenético
como quem contém explosivos enterrado no espírito
levantando-se com vigor e energia
desenferrujando as patas empenadas
escorando as dianteiras com firmeza
e coiceando com engenho e travessura as de retro enjambradas
alforriando o coração emparedado por argamassas
surgindo-lhe de rompante um psicodrama libertador
que a levou a pousar o seu pasmo olhar observador
para lá das estacas do bardo
até às margens solitárias do rio BoaVida Formoso
promovendo o desaguar
da sua entorpecida essência interior

Observou o verde dos campos, as flores e as árvores
o balançar ameno do castanheiro da casa
os primeiros raios de sol que trespassavam as folhas
as manhas das libelinhas de incursões provocadoras
inspirando a brisa silenciosa proveniente da montanha
despontando-lhe um espasmo encrespado em torção arrepiada
que a percorreu desde o retro ondulado
até à excresceste giba óssea da mioleira
sacudindo um moscardo das orelhas
e franzindo a testa com perplexidade e estupefação
ao avistar um bando de aves
que alcançava os picos elevados da montanha
pensando que seria de grande dimensão
ter asas adequadas a voos insignes emancipados

Shrek a OVELHA
foi tomada por um torpor claustrofóbico
pois vislumbrou naquele voo instrumental
uma metáfora messiânica de abcissas coordenadas
animada pelo fulgor de grandes mudanças
decidiu ver o mundo, sair do bardo
livrando-se dos ralhos vernáculos do dono autoritário
e de uma tosquia primaveril da farta cabeleira
que no futuro poderia afectar mais do que a sua lanígera branca

       (deixaria de rebolar-se na relva atraindo o cabresto sensível
        as pastagens pobres, as charnecas e baldios
        as tosquias da lã de acordo com o grau de frisura da fibra
        a época de cio dependente dos períodos de luz)

Medindo as distâncias dali aos cumes das montanhas alvas
achou prudente aspirar a um salto mais moderado
ficando-se pelas margens do riacho solitário
que corria fresco e liberto ao acaso
por entre seixos e urze branca
escondido por acácias daninhas e um juncal de canas
habitado por cigarras e rãs danadas
com organização de sons em sequência escalada
que a impediam de toscanejar em paz.

E nisto adestrou a sua pulsão ávida, curiosa e natural,
que se entranhou nas suas patas traseiras
dando pequenos coices à laia de zaragateira
preparou o impulso derradeiro e final
para o salto de fuga do aprisco penitencial
Inspirou de um só fôlego o ar que passava
e iniciou a corrida entre o ponto em que se encontrava
e o vínculo imaterial que lhe alvitrava a liberdade
Sustendo a respiração
deu saltos olímpicos com balanço e distinção
imitando a arte e a graça dos ruminantes ágeis
aproximou-se da cerca e elevando-se no ar
alongando o corpo e esticando as patas esbeltas
visou o umbral da cerca e os campos
por onde deambulará em descontrolada debandada

Mas Oh! que infelicidade ocasional e fortuita
Shreak a Ovelha
acabou de bater com os seus belos apêndices ósseos
na trave mais mal posicionada da cerca
caindo redonda como uma ilustre desamparada
num local onde prosperavam malmequeres nativos de África,
ervas-azedas, papoilas-de-espinho e cardos bicudos
enterrando-os
tanto na traseira fofa como no focinho lanzudo.
Atordoada
esperou que os olhos parassem de rodar
e que a pouca massa cinzenta se ajeitasse no seu lugar
pois tentaria outra vez e mais uma se necessário
com a determinação que só acompanha os objetivos ousados
erguendo-se com rapidez e determinação
não fossem as suas irmãs perceber
o seu opróbio vexatório tombo no chão.

E ponderando novamente os riscos associados
voltou atrás e recomeçou a corrida
em direcção à guarda repressora do bardo
por isso correu cortando o vento
determinada a liderar a sua própria aventura
lançando-se com força, agigantando o seu impulso no ar
conseguindo ultrapassar a barreira obscura
desaguando cada gota do seu ser e pensamento
em esforço controlado
indo cair redonda do outro lado da cerca do prado

Shreak a Ovelha
correu para os subterrâneos das grutas escarpadas
sobrevivendo na mais obscura clandestinidade
habitando secretamente túneis claraboias e riachos de montanha
comendo erva tenra e bebendo dos veios que sulcavam as pedras
sete anos passaram até regressar ao bardo
quando o peso da lã que lhe pendia das costas
lhe tolhia os movimentos e a impedia de socializar
a alegria de a rever foi imensa
pois tosquiaram-lhe todas as camadas de pelo frisado
tendo perfeito um fardo de 27 kilos de lã encaracolada
que foi oferecido para aquecimento e paramentos
com grande generosidade amplitude e grandiosidade
a todos os pobres, pedintes e maltrapilhos
da sua pequena comunidade

CRV©2017

30 outubro 2017

Robin Wight

Fantasy Wire Sculptures - Fairies

15 outubro 2017

A Casa Centenária

Em memória do meu avô Joaquim



As memórias da casa centenária
tinham raízes antigas
que se erguiam do chão
com a demagogia das conquistas clandestinas
espinhos obtusos que cercavam a vida
entortando as ombreiras das portas
propagando-se pela estrutura como uma aleivosia fria
evadindo os seus ramos volteados
pelas frestas das janelas enjambradas
à procura de um recurso entorpecido
de uma ideia revolucionária
de uma fresta revelada obscura iluminada
que lhe desse uma senda definitiva
para exterminar a ditadura vitupeada

Havia nas conjuras secretas
uma sede atormentada de autonomia
vozes embargadas que em sussurro eclodiam
inscrições e manifestações destemidas
que desafiavam a heteronomia do Estado
ceifando com estucadas determinadas
a melancolia circunspectamente instalada promovida
pelo negrume das perseguições obsessivas
as deportações inesperadas
a castração das almas livres ensanguentadas
e o amargo fel das prisões injustiçadas

A casa centrava-se
nesse ardor de náusea ofegada
onde o ramalhar de vozes conjuradas
se concentravam em sussurradas congeminações
contra as atmosferas rarefeitas de honra e dignidade
utilizando um scriptum dialéctico cúmplice dissimulado
vermelho sangue gravado em todas as palavras
segredos e conjuras ajustados à rebelião armada
silhuetas com reflexos da “luta continua”
Deus, Pátria e a liberdade tanto ansiada
conspirações ocultas contra a vil ditadura
a “revolução” e a voz acossada da insubmissão
um solo longe dos opressores condenados
liberto de todas as considerações abstratas
do cinzento amargurado sufocado imoderado
dos espaços exteriores controlados
tendo apenas nas mãos os traços firmes da esperança
volteando a sorte madrasta a cada mudança
sonhando com o dia distante agora
em que a vitória explodirá esfuziada
readquirindo a ferro e fogo
a tão desejada procrastinada
LIBERDADE

CRV©2017

15 julho 2017

Bertel Thorvaldsen

Ganymede Waters Zeus - 1817

12 julho 2017

A casa sobre a praia

para a G.V.P.


A casa caiada sobre a praia
vibrava
como um mundo de pura alegria invariável
com recantos de luz amplificada
que vagueavam pelo chão encerado
acompanhando invariavelmente
as medidas exactas da tarde
junto ao tranquilo alpendre envidraçado
em momentos de justo descanso eterno

Enquanto uns repousavam da praia
nós corríamos para um mundo sem dimensões
feito de fantasias ágeis
e desmesuradas agitações
onde se incarnavam labirintos e invenções
com bocados de alma tatuados
pelas paredes
pelo tecto do telhado
feito com mãos a três dimensões
com a liberdade de um poema
e as cores garridas de uma perspectiva animada
agigantada
pelo estremecimento de viver
por dentro
em sintonia
com o lado melhor de todos nós

Cozinhávamos a ternura dos nossos segredos
na vinda dos caminhos secretos
com longos abraços
sementes de cardo
amoras por entre as giestas
flores de fumo afinado
encontros que faziam tremer as pedras
adornos, chapéus e colares
tolerados por apêndices elevados
máscaras de palhaços espantados
por entre o apelo ao silêncio telepático
e as risadas estridentes
das coisas mais importantes do mundo

Na busca do desconhecido sobrenatural
as caminhadas pela selva
entre a água cristalina da fonte da Margarida
e os muros decadentes das quintas em redor
adornados com as garras das silvas inconformadas
carregadas de amoras silvestres
e flores selvagens entrelaçadas
gafanhotos empoleirados em vagens
osgas, cobras e lagartos dissimulados na terra
gritos histéricos
corridas de pânico
tropeções
e as pedras a enredarem-se nos sapatos
numa depuração das corridas proféticas desatinadas
cravadas nas grutas recônditas do passado
viço pungente enxertado
nas memórias que convergem
agarradas a um fio de prumo perpendicular
sentadas num baloiço
de frente para o mar
por cima de lingotes de ouro
desenhados
para além da linha do horizonte

CRV©2017

17 junho 2017

Apolo

13 junho 2017

6 Haikus - Das Palavras ácidas


Passa os dedos pelos ângulos apolíneos das palavras

decifra-lhes a origem do espasmo

cataliza todas as formas de pirotecnia forjada



Foge das palavras ácidas,

das fáceis também

ambas concorrem para o submundo do vento



Tem cautela com a rectórica do ímpio

pois na sua solidão táctil

visa impor-se numa latitude cobarde



Não reajas ao agastado

na próxima madrugada as suas palavras

serão transportadas por asnos e camelos



Mantém a tua integridade inabalável

olha com desdém as palavras

que se lançam imprudentemente no abismo



Observa as palavras do cínico na boca desenhada

aguarda pacientemente

pelo último suspiro


CRV© 6 HAIKUS

30 maio 2017

Henri Bouchard

Young Girl with gazelle

28 maio 2017

6 Haikus - Pedras

Cuida da tua casa de pedra

das sombras apolíneas que a envolvem também 

deixa-as preencher o espaço introspectivo das palavras



A ilusão trágica das estátuas de pedra 

consiste em desconhecer 

como seriam talhadas as expressões das mãos



Enaltece o poder das pedras 

como Albertus Magnus profetizou 

são intrínsecos os elementos secretos sem nome



Tenta encontrar o sonho

na escalada da montanha

Decifra-o por entre as pedras serenas



Ignora os tiros de pólvora seca, as pedras também 

salta por cima da morte 

como um pássaro que voa rumo à liberdade



Pouco importa aquele que te arremessa pedras 

o vento tratará de lhe oscilar a mão 

esculpindo arcos frustrados no tempo


CRV© 6 HAIKUS