04 fevereiro 2026

Rosário

Afaga ao de leve as pedras encantadas 

que se contorcem suavemente por entre os teus dedos 

implora o fôlego que delimita as personagens 

dá-lhes a revelação afável da verdade 

suprime as contrariedades 

e exalta os arquétipos da redenção 

que atravessam as flechas do tempo

 

Clama em silêncio 

por um copado robusto de palavras 

pela revelação errante iluminada 

por um mistério que se insinua exasperado 

desdobra a alma em hipérboles em eixo conjugado  

desvenda todas as preposições ásperas 

e enrola todos as letras em pulsações ritmadas 

numa trama com inexorável subtileza

 

Recusa todas as crispações indiferenciadas 

a iniquidade dos néscios dantescos 

os corpos esventrados 

a queda em traiçoeiros buracos negros 

procura o local da enseada ou da queda de água 

com recantos côncavos claros 

e imprime-lhe um dialecto branco sem mordaças 

onde os sonhos se empoleiram e ganham formas abstratas 

equinócios do pensamento em movimento

 

CRV©2025


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